quinta-feira, 13 de março de 2014

                     O MENINO QUE ALIMENTAVA OS PORCOS

Meu pai tinha uma pocilga. Todas às tardes ao voltar do colégio eu tinha a incumbência de alimentar os porcos de raça, banhá-los e limpar aquele chiqueiro. Eu era um pré-adolescente franzino e sem muita força pra carregar os baldes de rações e lavagens por avenida abaixo até chegar na pocilga. Descia à avenida com um misto de preguiça e vergonha por ter que desempenhar tal tarefa. Mas assim era da vontade de meu pai, e era assim que eu fazia. Na minha casa as ordens paternas não eram questionadas, eram executadas.

Na tarde passada, ao correr pelas ruas de minha cidade, me deparei com um senhor carregando dois baldes de restos de comidas em uma bicicleta e aquele odor automaticamente me transportou pra minha infância. A imagem de meu pai me veio à cabeça imediatamente. Pensei em todos os seus ensinamentos, suas ordens, seus conselhos, seu jeito de educar, sua forma de amar. Pensei no quanto seus ensinamentos para o trabalho modelaram o meu caráter e no quão parecido com ele hoje eu sou.

Pensei no espírito de resiliência que adquiri desde a mais tenra idade e que nesse modelar estava a educação familiar que eu pude receber como a melhor e a maior herança. Pensei na passagem bíblica na qual diz: "... não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra vós, vos despedacem." Neste caso, as "pérolas" que eu joguei aos porcos me fortaleceram de uma tal maneira, e sem que eu me desse conta de que, o que se despedaçava era um destino no qual está reservado a todos àqueles que não lutam por seu objetivos. Meu pai se foi, mas permanece vivo em mim. O combate continua. Gratidão eterna, pai!