O MENINO QUE ALIMENTAVA OS PORCOS
Meu pai tinha uma pocilga. Todas às tardes ao voltar do colégio eu
tinha a incumbência de alimentar os porcos de raça, banhá-los e limpar
aquele chiqueiro. Eu era um pré-adolescente franzino e sem muita força
pra carregar os baldes de rações e lavagens por avenida abaixo até
chegar na pocilga. Descia à avenida com um misto de preguiça e vergonha
por ter que desempenhar tal tarefa. Mas assim era da vontade de meu pai,
e era assim que eu fazia. Na minha casa as ordens paternas não eram
questionadas, eram executadas.
Na tarde passada, ao correr pelas
ruas de minha cidade, me deparei com um senhor carregando dois baldes de
restos de comidas em uma bicicleta e aquele odor automaticamente me
transportou pra minha infância. A imagem de meu pai me veio à cabeça
imediatamente. Pensei em todos os seus ensinamentos, suas ordens, seus
conselhos, seu jeito de educar, sua forma de amar. Pensei no quanto seus
ensinamentos para o trabalho modelaram o meu caráter e no quão parecido
com ele hoje eu sou.
Pensei no espírito de resiliência que
adquiri desde a mais tenra idade e que nesse modelar estava a educação
familiar que eu pude receber como a melhor e a maior herança. Pensei na
passagem bíblica na qual diz: "... não atireis aos porcos as vossas
pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e, voltando-se contra
vós, vos despedacem." Neste caso, as "pérolas" que eu joguei aos porcos
me fortaleceram de uma tal maneira, e sem que eu me desse conta de que, o
que se despedaçava era um destino no qual está reservado a todos
àqueles que não lutam por seu objetivos. Meu pai se foi, mas permanece
vivo em mim. O combate continua. Gratidão eterna, pai!
